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Este não é um relato sobre violência obstétrica, mas bem que poderia ser e falaria com conhecimento de causa.

Até cerca de 2 anos atrás, eu nunca tinha ouvido falar em violência obstétrica, não nesses termos, mas já ouvia desde cedo muitos relatos de como as mulheres deveriam se comportar numa maternidade. Como se o ato de parir fosse um punição por um ato impuro e os médicos e equipe, tivessem a missão, contra suas vontades, de reparar esse pecado, mas não sem passá-lo na nossa cara. Nesse momento o poder é da equipe, não da mulher. A ela cabe não gritar, não xingar, nem reclamar direitos e agradecer aos céus, por que poderia ser pior. Exagero?? Nem tanto, em muitas maternidades isso acontece ainda.

O que deveria ser mágico, lindo e emponderar a mulher, torna-se traumático, dolorido e frustrante. Afetando a vida família, o psicológico e muitas vezes até o sonho de ser mãe novamente. Não são poucas as mulheres que passaram por isso. Todo dia isso acontece, todo dia é tirado da mulher sua liberdade de responder pelo seu próprio corpo.  Eu passei por isso, me tiraram o direito de saber o motivo pelo qual, eu com 10 de dilatação, pronta para ter minha filha normal, não poderia ter. Fui para sala de cirurgia, sem acompanhante, pensando mil coisas sobre a saúde da minha filha e a minha, chorando, desestabilizada. É difícil deixar se levar sem saber para onde e motivo. Queria gritar: O QUE ESTÁ ACONTECEEENDO? Mas não fiz, tive medo, medo de ser mal tratada, de começarem a fazer pirraça para me atender. Medo de algo dar errado. Só queria ver minha filha. Só queria que ela tivesse bem. E lembro-me de orar enquanto a enfermeira colocava soro no meu braço: Senhor se tiver de acontecer algo com alguém, que seja comigo. Poupe minha pequena. E me fizeram uma cesariana! Depois, não contestei nada, nem sabia que tinha esse direito. Só estava feliz por ter tudo corrido bem. Depois, que o médico do meu pré-natal me explicou o que tinha ocorrido e o perigo de minha pequena ter tido uma parada cardíaca.

Foto; Jamylle Rodrigues
Foto: Jamylle Rodrigues

Mas, o que violência obstétrica?

“Segundo a cartilha distribuída pelo MP do Estado de São Paulo, a violência obstétrica pode ser identificada durante a gestação, no momento do parto, que inclui o trabalho de parto, o parto em si e o pós-parto, e no atendimento de complicações de abortamento.

 Na Gestação:

Negar atendimento, impor dificuldades ao atendimento em postos de saúde durante o pré- natal, realizar comentários constrangedores ou que propagem o preconceito de raça, classe social, escolaridade, religião, estado civil, orientação sexual e número de filhos, sofrer humilhações ou negligências no atendimento e ter a cesárea agendada sem recomendação baseada em evidências científicas por pura conveniência e interesse médico estão entre as violências sofridas durante a gestação.

Trabalho de parto, parto, pós-parto:

Separar bebê saudável da mãe na primeira hora de vida é violência. Impedir a presença de um acompanhante durante todo o período de internação, aplicar soro com ocitocina sintética sem o consentimento da mãe, realizar sucessivos exames de toque, exigir jejum, posição ginecológica ou imobilização, praticar episiotomia, proferir agressões verbais, impedir ou retardar o contato entre mãe e bebê saudável ou dificultar o aleitamento materno na primeira hora de vida e introduzir leite artificial ou chupeta sem a autorização da mulher nos berçários também são violências obstétricas.

Abortamento:

As complicações do aborto são as principais causas de morte de mulheres em todo o Brasil. Para as mulheres que procuram atendimento após terem abortado são garantidos respeito à liberdade, dignidade, autonomia e autoridade moral e ética para decidir sobre seu próprio corpo. Já agir com preconceito, estereotipar o indivíduo, discriminar, negar ou desumanizar o atendimento, questionar a causa do aborto, realizar procedimentos invasivos sem explicação, consentimento ou anestesia, ameaçar, culpar a mulher ou coagir com a finalidade de confissão e denuncia à Polícia Militar também são tipos de violência obstétrica.

Como denunciar uma violência obstétrica:

Para denunciar uma violência obstétrica, basta procurar a Defensoria Pública do município com cópia do prontuário médico, documento que registra todos os procedimentos pelos quais a mulher foi submetida desde que chegou ao hospital ou maternidade. Para obtê-lo é preciso procurar o setor administrativo da instituição e solicitá-lo. O único custo que pode ser cobrado é o de cópia das folhas.”

P.S: A partir das informações sobre o conceito de violência obstétrica, até o término do texto foram retirados do site: http://bebe.bolsademulher.com/gravida/materia/violencia-obstetrica-saiba-o-que-e-e-como-denunciar

Assistente social formada pela UFPB, ama sua profissão, mas tem outras paixões e escrever é uma delas. Por isso, cursou Letras até o sétimo período, mas parou quando Maria Paula nasceu e se viu renascendo como gente, como ser vivente. É casada, trabalha, estuda e é mãe apaixonada. Ama poemizar a vida, transformar sentimentos em palavras e é melhor escrevendo que falando.

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