Como explicar para uma criança de dois anos, que viu uma mãe batendo em outra criança mais ou menos de sua idade, o que estava acontecendo? Por esses dias, Maroca testemunhou algo assim e chorou, o que me cortou o coração por saber que o choro era empatia pela outra criança. Ela se colocou no lugar do outro pequeno, que talvez, fosse mais velho que ela um pouco mais de um ano. O que fazer?? Eu não sabia!! Eu menti para ela. Não faço isso, sempre falo a verdade, mas não soube o que fazer. Tirei-a de perto e disse que a mãe tava brincando com a criança. Perguntei se ela sabia chorar de brincadeirinha, fingi que chorava também e ela acabou rindo e entrando numa brincadeira de faz-de-conta. Mas, fiquei com aquilo na cabeça e no coração. O que leva uma pessoa a bater no seu filho no meio de uma loja de departamento porque a criança tava, provavelmente, cansado e se recusava a andar.

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O impressionante foi ver a aprovação ou pelo menos a apatia estampada (como as vestimentas que estavam expostas nas araras naquela loja), na cara de quem via aquilo. A criança parecia já ter sido julgada e condenada à humilhação pública, talvez nem o talibã fizesse melhor que aquela mãe. O pequeno réu foi sentenciado a ser exposto como exemplo na frente da multidão por ter desobedecido a uma ordem da mãe.

Visto isso, fica cada vez mais claro para mim, como a aceitação do castigo físico é cultural, independe de raça, classe social ou poder econômico.

Não acredito que a punição eduque, que tenha caráter reflexivo: “A criança deixa de fazer algo por medo, não por compreender o certo e o errado”. Mas, quem disse que ela não pode voltar a fazer aquilo, agora com mais cuidado para não ser pego?

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A lei da palmada ou Lei Menino Bernardo (Lei 7672/2010), foi aprovada e agora?? A Lei visa proibir o uso de castigos físicos ou tratamentos cruéis ou degradantes na educação de crianças e adolescentes. Prevê punição até a quem não denunciar. Será que isso muda alguma coisa?? Bem, se os princípios de respeito à criança e sua condição, a empatia, o amor e o respeito não fizerem parte da criação, não creio. Até mesmo porque a Lei é bem subjetiva em alguns pontos e não especifica exatamente o que seria o “sofrimento físico”, ao qual a criança não deverá passar, e nem muito menos proíbe a palmada, palavra que não é nem mencionada nela. Mas, imagina a que ponto chegamos com os maus tratos a nossas crianças a ponto do estado ter que intervir na educação familiar.

A discussão sobre essa Lei é gigante e parece que não termina nunca, mas o que mais me admira é alguns cristãos contra a Lei da Palmada. Sou cristã e a favor da Lei, uso princípios cristãos para educar minha filha, na convivência com outras pessoas, na minha vida. E por que vou exortar com amor outras pessoas e tratar minha filha com “vara”? Não deveríamos ser os primeiros a exercer a paciência e amor, por que não começar em casa? Mas, independente de princípios religiosos, ideológicos, filosóficos, não há nada melhor do que se colocar no lugar do outro.

Confesso que levei umas palmadas quando criança. Não estou amenizando ou usando eufemismos, foram palmadas mesmo. Nunca fui espancada, não Lembro o porquê delas, mas lembro de cada uma delas e de como me senti. Não me recordo o que tirei de lição, mas recordo do medo de fazer algo errado e passar por aquilo de novo. Lembro que me sentia culpada por tê-los deixados bravos. Mas, não tenho traumas e amo meus pais, porque minha educação não foi só isso. Conversávamos muitos e os exemplos morais eram refletidos em mim, porém era o modo deles, era o que eles acreditavam e entendiam como educar. Eu penso diferente! Não quero que minha pequena se sinta como me senti. Não quero proporciona dor ou mágoa, mesmo que momentânea, a ela. Quero que se lembre de sua infância sem tristeza ou pesar. Quero que se lembre da mãe amorosa e apegada que sou. Sem eximir-me, é lógico, do estabelecimento de limites e regras, porém sem castigos físicos e outros.

Assistente social formada pela UFPB, ama sua profissão, mas tem outras paixões e escrever é uma delas. Por isso, cursou Letras até o sétimo período, mas parou quando Maria Paula nasceu e se viu renascendo como gente, como ser vivente. É casada, trabalha, estuda e é mãe apaixonada. Ama poemizar a vida, transformar sentimentos em palavras e é melhor escrevendo que falando.

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