Ricky

 

De início, o filme Ricky se baseia em um bebê que ganha um par de asas, mas tal feito não é apenas um ponto de análise, pois a o obra fílmica adentra no cotidiano familiar, apresentando as peculiaridades de uma não típica instituição familiar idealizada pela cultura, mas sim, uma tentativa de ser e ter uma família, sendo que o bebê é proveniente de um segundo relacionamento, e que já carrega uma irmã de um pai desconhecido na obra.

A mãe ao notar o sofrimento de um bebê e ver nódulos nas costas, levanta a defesa, em ir contra o pai de Ricky, e classificando-o por maus tratos, sim, algo peculiar sustentado pelo instinto materno juntamente com a questão da fusão mãe/bebê, mas com o passar do tempo percebe-se que são asinhas nascendo.

Com as asas fora do corpinho branco, não é apenas um corpo de certa forma controlado por seus pais, não mais um ser frágil que apresenta beijos a toda hora, exige cuidados dentro da normalidade e vem se desfazendo dos fios transparentes da maternagem. Ele começa a existir, e não foi necessário fazer o teste do espelho, como se a metáfora da liberdade saltasse dos pezinhos que irão aprender a caminhar para as asinhas, que são comparadas com asas de frango: um bebê galinha.

O cineasta francês François Ozon, aborda os elementos como a liberdade (já mencionado), e conflitos humanos dramáticos, colocando o universo infantil (se é que esse universo realmente existe), juntamente com o do adulto, par a par, uma bela apresentação da “diferença” de mundos, sendo que a diferença não é para mais nem para menos. Tal fator é característico de em obras de artistas como Ricardo Azevedo na literatura infantil e Hayao Miyazaki em suas animações, ao apresentarem uma sintonia entre o mundo adulto e infantil e levantar questões: O que é ser criança? O que é ser adulto? O que é ser velho? Nas obras de artistas citados, as crianças tomam a frente em decisões, são respeitadas, amadas, mesmo que haja convergência de pensamentos e atos por parte dos adultos, e as mesmas pessoinhas também carregam características essenciais, sofrem, padecem, sorriem, vivem. Características que se opõem à cultura rançosa da indústria hollywoodiana em infantilizar crianças e colocá-las como seres submissos aos mandamentos adultos, em diversos filmes e/ou animações, e das religiões cristãs em formar cordeirinhos de Deus.

Se os bebês merecem nascer com asas, que os adultos também mantenham tais asas vivas e vibrantes, que não as cortem, muito menos mutilem, e jamais tentem destruir asas alheias, pois o corpo na existência deve ser respeitado, merece existir, merece voar, merece gozar. Esse pensamento soa utópico, mas creio que dentro de nós existe essa esperança, essa vontade de alcançar o idealizado, e provavelmente o não alcançável. Ricky é belo, simbólico, colorido e faz descer lágrimas humanas das mais variadas formas.

Ficha técnica:
Título: Ricky
País de origem: França / Itália
Direção: François Ozon
Ano: 2009
IMdb: http://www.imdb.com/title/tt1189076/

Ricky capa

 

 

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