Parto Natural Hospitalar Humanizado

 Em janeiro, às 21 semanas de gestação, a partir do relato de parto de Lívia Beatriz, Heloá me um mandou e-mail pedindo informações acerca do acompanhamento de doula. Não foi uma gravidez planejada e como ela havia se mudado para João Pessoa em 2012, procurou uma obstetra por indicação, mas não estava convencida de que a médica realmente a assistiria num parto normal.

Marcamos na mesma semana um encontro em minha casa e conversamos muito sobre o panorama obstétrico de João Pessoa, os benefícios do parto natural e de viver esse momento com muito respeito. Sugeri alguns nomes para que o casal pudesse ir onde se sentisse mais à vontade. Ela escolheu uma GO que atende parto natural hospitalar no apartamento (e não no bloco cirúrgico).

Convidei Heloá e Flávio para uma roda de gestantes e incentivei que sempre fossem, para que o empoderamento fosse se consolidando.

Cercar-se de pessoas que acreditam no parto natural e na capacidade da mulher parir é importantíssimo para quem busca um bom parto.

Como o parto domiciliar é o foco dessa roda que indiquei, e adiei por algum tempo o plano de dar início a uma nova roda, sentimos – eu e Cintia Mapurunga – que era chegada a hora de botarmos a mão na massa e acolhermos esses casais, essa nova cara de quem busca o parto ativo. Então se confunde com a nossa própria história a jornada desse casal que tanto nos incentivou a começar o projeto Gestar e Maternar (G&M).

Pronto, eles estavam em todas e isso me inspirou muita confiança no resultado, não duvidei nem por um segundo da força de Heloá. Ela sempre buscava algum livro ou relato, sempre trazia suas questões e foi matando um leão por dia. Esse caminho em busca do parto natural é muito pessoal, e nem todas as respostas estão nos livros, ou nas pessoas, muitas delas estão em nós mesmas. E eu não a vi se esquivando, mas pelo contrário, superando cada vez mais os seus medos.

Chegou o dia, e como eu e Cintia íamos encontrar no final da tarde a ilustradora que fez a logomarca G&M, compensei o horário por dois dias no trabalho para tirar a tarde e me embonecar no salão de beleza, me preparando para o especial de dia das mães G&M. Entrei no salão e a atendente começou lavando meu cabelo, a manicure veio hidratar minhas mãos e aí meu celular toca.

13:18
Heloá: – Ju, estou tendo contrações e vai nascer hoje, visse?
Eu: – Que coisa boa, ‘loá! As contrações estão regulares, vigorosas? Começaram a que horas?
Heloá: – Regulares, sinto como cólicas. Estou sozinha em casa.
7 minutos de conversa e finalmente uma contração. Ela me disse que de manhã havia ido ao consultório da GO e que já estava com 3 cm de dilatação. Achei que ainda era cedo para ir ao seu encontro.
Eu: – Em vinte minutos, tudo continuando como está, vou seguindo praí e você pode ir chamando Flávio também, ok?

13h40
Heloá: – Estou muito cansada, passei a noite acordada. Vou tentar cochilar. As contrações estão toleráveis.
Eu: – Ok! Me liga quando acordar.

15h40
Flávio: – Oi, Ju! Tudo bem por aqui, ela está com contrações de 3 em 3 min. Intensidade média.
Eu: – Tô saindo de casa agora.

Às 16h12 chego ao apartamento e sou muito bem recebida pelo futuro pai. O apartamento é muito charmosinho, Heloá estava lá no quarto e a gente se encontrou e se abraçou ainda na porta. “Dia 10 de maio é um dia lindo para nascer.”, não sei o quê me deu, mas foi uma vontade de dizer isso para ela. Como foi bom encontrá-la tão bonita, cabelo preso, top e saia bem escolhidos para a festa do nascimento. Lá vem outra contração.

 

Fotografia: Cintia Mapurunga
Fotografia: Cintia Mapurunga

 Sugeri a bola suíça, ensinando como usá-la. Ela foi aceitando aos poucos. Tentei massagem nas costas, mas com massageador elétrico não deu certo, melhor com a mão. Pedi que auscultassem o bebê com um doppler portátil (de uso doméstico) que eles usaram nas semanas finais, logo Heloá encontrou o coração e os batimentos estavam em 144, tudo indo bem. As contrações começaram a apertar e lembrei o casal de que ir para o hospital é melhor enquanto as contrações mais intensas não chegam. Sabe-se lá como estará o trânsito, como será o deslocamento.

Percebi através de sinais subjetivos que era chegada a hora de ir – nem cedo e nem tarde. Ir cedo demais ao hospital pode implicar em intervenções e ir tarde demais pode deixar todo mundo nervoso, ainda mais com toda burocracia que é enfrentada para se conseguir internação de urgência, ou seja, um parto não agendado. Assim que a fotógrafa chegou começamos a nos prepararmos para seguirmos, demos uma passadinha no quarto preparado para o pequeno Vinicius.

A ida foi tranquila e o bebê estava bem mais baixo, sabia por causa do lugar onde Heloá requisitava a massagem. Fui com eles no carro e a acompanhei na recepção. Assim que ela foi avaliada na primeira triagem recebi uma pulseira de acompanhante e seguimos com a bola para a ala obstétrica. Recusamos a cadeira de rodas, mas são tão insistentes que acho que deve ter muita mulher que aceita só para evitar a discussão. O marido e a fotógrafa ficaram por lá resolvendo as pendências até que autorizassem a entrada de todos. Hora confusa. Não havia apartamento disponível. Aguardamos o plantonista e aproveitamos para ligar para a GO. Ela começou a sentir bastante pressão, o sangramento começou, parecia mesmo estar bem próximo o parto, mas era só a transição (ou partolândia)… Flávio chegou e entramos na sala de exame.

Drª J fez o primeiro toque e a dilatação estava em 8 cm. Que notícia boa! Chegamos na hora certa! Ela disse que tudo bem se não arranjassem apartamento, ela poderia parir ali mesmo – me lembrei do plano de parto e tirei da bolsa caso não conseguissem um apartamento ou a equipe não fosse aquela inicialmente prevista. Liguei para o celular da drª G e a plantonista conversou diretamente com ela, disse que viesse depressa ou não daria tempo.

Drª G ficou presa no trânsito e me ligou às 17h51, ficamos somente eu e Heloá na sala de exames por quase meia hora. Foi ótimo, ficamos bem à vontade, ela usou o chuveiro. O trabalho de parto continuava apesar do impasse, a natureza ia seguindo seu curso.

 Logo conseguiram uma suíte. E enquanto preparavam o espaço, Flávio e a fotógrafa conseguiram desvencilhar-se das regrinhas. Logo a GO chegou e já estávamos seguindo para onde finalmente o parto aconteceria. Era bola suíça, banqueta de parto, baldinho, bolsa, mochila… A neonatologista chegou quase ao mesmo tempo e foi uma grata surpresa encontrar a pediatra do meu filho, que me cumprimentou com um abraço e perguntou sobre o Pedro. Bons ventos a trouxeram, certamente.

“Mãezinha, assim que o bebê nascer vou aspirar com a perinha, aplicar a vitamina e já te dou ele no colo, tá bom?” – ainda bem que Heloá concordou sem entender nada, na partolândia estava sem passagem de volta. Acompanhei a médica pelo corredor e apresentei o plano de parto do casal, pedi que se o bebê chorasse não fosse aspirado e ela disse que tudo bem. Ufa! Meu coração já me dizia que daria tudo certo.

Por volta das 19h a bolsa rompeu no chuveiro e a drª G veio conferir a posição do neném. A dilatação era total, mas precisava retirar rebordo de colo para facilitar a descida. Foi doloroso para Heloá, mas foi bem rápido. Agora era questão de minutos, chutei 20h com Cíntia. Nesse meio tempo, ficamos somente nós quatro no quarto, e volta e meia alguma enfermeira aparecia para perguntar tudo de novo e ensinar a força do período expulsivo. Era hora de dar espaço para a descida e ficar parada na cama não era futuro, então sugeria mudança de posição, bola, banqueta e chuveiro. E foi lá no chuveiro que o casal pode ter seu momento, foi lindo de ver a parceria dos dois, o serviço de maridoulo.

 

Fotografia: Cintia Mapurunga
Fotografia: Cintia Mapurunga

Em algum momento Flávio se ausentou e fiquei com Heloá e Cintia quando ela anunciou que sentia algo ‘lá embaixo’, e que não sabia o que era. Cintia partiu pelo corredor para chamar a drª G e chamei de volta porque era macio, sem puxos. Heloá me pediu para fazer o toque e eu disse que não (sempre deixo claro que não faço ausculta ou toquel, pois são procedimentos médicos). Mas ela insistiu tão resoluta que calcei a luva para sentir o tal “macio”.

Era a cabeça do bebê, fiquei emocionada e achei tão macia mesmo – sentia os cabelinhos nas pontas dos meus dedos. O rosto dela se iluminou e a gente sorriu, pois já estava chegando o esperado momento final. Pedi a Cintia que chamasse a GO, daí calcei novamente outra luva e pedi licença para me certificar. Senti o cocuruto, era isso mesmo, o bebê estava quase nascendo, eram 19h30. Fui muito cúmplice de Heloá durante todo o processo, mas acredito que este foi o que transpareceu melhor nossa confiança e respeito uma pela outra. Flávio chegou e pedi que ele a ajudasse a deixar o banheiro e fui até o corredor.

Quando voltei estavam todos ali, os cabelinhos do pequeno já apareciam, loba semi-sentada na cama e futuro pai ali juntinho. A cada contração o bebê avançava mais e ela indo superbem. Em nenhum momento desde que nos encontramos naquela tarde ouvi a palavra “dor”, ninguém falou em dor até o final de tudo. E como todos soubéssemos que a dor esteve presente, procuramos amenizá-la de toda forma. E aí houve um desencontro com o sofrimento. Era tudo leve, um clima de muita paz. Em certo momento drª G tentou auscultar o bebê, mas não conseguiu e isso a deixou um pouco aflita – mas lá vinha outra contração e ele avançava um pouco mais. Heloá me perguntava se ela ia conseguir e eu respondia “sim, você já está tão perto”. O quarto ficou cheio de gente, entraram algumas enfermeiras. Não pensei em pedir que deixassem o quarto, o momento era absolutamente tranquilo.

A luz do quarto foi apagada e o foco de luz direcionado de modo que não incomodasse Heloá, sugestão da neonatologista. Era tudo o que faltava para o desfecho. A música que tocou foi “Comfortably Numb” (Pink Floyd) e não pude deixar de cantar um pedacinho (e me emocionar muito relembrando meu parto)… Assim que acabou vieram os puxos finais. Drª G me pediu para tentar auscultar, mas não via mais sentido naquilo, afinal não daria tempo de fazer mais nada antes do bebê nascer espontaneamente. Veio primeiro a cabeça que deslizou suavemente e aí Heloá fez uma força incrível em seguida e Vinicius nasceu todo, às 19h45, bem limpinho, chorando. E foi direto pro colo da mãe.

Fotografia: Cintia Mapurunga
Fotografia: Cintia Mapurunga

“Como é lindo!”, “Você é tão lindo”, “A gente conseguiu, filho”, Heloá repetia e olhava para ele e para as pessoas, certamente sem acreditar naquilo tudo. Todos absolutamente emocionados, inebriados de tanta força, tanta vida. Cintia fotografava e a GO se preparou para cortar o cordão que parou de pulsar poucos segundos após o parto, Vinícius calou-se e contemplava o novo. Flávio cortou o que restava do cordão. Heloá disse que não conseguia nem chorar e Cintia disse que tudo bem, que a gente chorava por ela. É, tava todo mundo chorando e rindo mesmo. O pequeno nem ligou com a injeção de vitamina K, ninguém tirou ele dos braços da mãe. A neonatologista deu a nota 10 de Apgar e parabenizou a mãe. Deixou para a equipe de enfermagem pesar e medir o bebê numa outra hora e despediu-se.

Heloá teve uma laceração mínima e precisou de um pontinho num vasinho que rompeu. Flávio e Cintia ficaram com o Vinicius enquanto fomos até a sala de exames. Quando voltamos de lá já fazia quase uma hora do nascimento e nenhum amigo ou familiar sabia de tudo o que havia acontecido naquela sexta-feira, era chegada a hora de compartilhar com os mais íntimos. É um momento muito gostoso, mágico, e ninguém quer ser deixado de fora. A “pobre” Heloá explicando que não sabia ainda o peso do bebê e sua prima duvidando de que havia sido mesmo um parto hospitalar. Risos. Tantas chamadas. Tantas recordações que vão ficar para sempre nas nossas memórias. O primeiro parto natural que é fruto do nosso projeto, que se confunde com a criação do Gestar & Maternar (que parceria, hein Cintia?).

Enfim, é nesse clima que vou concluir o relato. Ou vou ficar rasgando seda até umas horas… Agradeço a Deus por ter nos permitido esse feliz encontro. Heloá e Flávio pela confiança, e ao pequeno Vinicius por ter me dado a honra de conhecê-lo no primeiro instante. Ele nasceu com respeito graças às escolhas de vocês, na presença de pessoas que espero, ainda vão poder receber muitos outros bebês com o mesmo amor.

Contribuição do leitor.
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