Foto retirada do site: http://www.thingamababy.com/baby/2007/10/dollhouse.html
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Fui uma criança que brinquei de carrinho com meus irmãos, soltei pipa (sem cerol), joguei pião, bola de gude. Brincava de bonecas também, mas era raro, gostava mesmo de jogar bola, de correr, de subir em árvores, andar de perna de pau (risos). Só vivia de joelho ralado, pernas roxas e quando cresci um pouco, optei por praticar uma arte marcial, o karatê. Sempre detestei vestidos e saias, e minha mãe, coitada, costurou muitos vestidos que eu nunca usava, porque limitava meus movimentos. Engessei braço direito, braço esquerdo, perna direita, perna esquerda (não é nenhuma música do Padre Marcelo Rossi). E Pasmem, isso não modificou minha orientação sexual, não fiquei masculinizada, nem machista, – é porque uma mulher pode ser tão machista quanto um homem. Só fui uma criança muito feliz, brinquei com tudo que quis. Hoje, passo isso para a minha filha. Outro dia, ela ganhou um carrinho, presente que veio de longe e depois soube que a pessoa jurava que era para um menino. Vi como um presente normal e a pequena amou. Adora o carrinho, como também jogar bola com mamãe e papai.

Criança só quer brincar, não importa do que seja. E precisa disso. Quando a criança brinca, ela ativa o cérebro por meio da imaginação, da capacidade de concentração e da escolha de alternativas. Dos 2 aos 6 anos, ocorre uma mudança critica na formação cerebral, com aumento da quantidade de neurônios. Por isso, brincar é fundamental, seja do que for.

E cores?? Conheço crianças que por serem meninos não vestem ou usam qualquer brinquedo, que tenha rosa. Dizem que rosa é para/coisa de menina. E mães, que crucificaria quem lhes desse um carro de brinquedo para sua filha. Na minha casa não tem segregação, nem de cores, nem de brinquedos. As cores, os brinquedos e as pessoas são livres.

Na verdade, a discussão é bem mais abrangente, é de gênero, e de um machismo hereditário. Quem me garante que uma menina que só brinca de bonecas, que aprende a cuidar, pentear, dá banho, será uma boa mãe? E o menino não deve também brincar de boneca para ser um pai mais zeloso? O menino que só ganhou carrinhos e bonecos na infância é homossexual por quê?

[caption id="attachment_8171" align="aligncenter" width="620"]Foto: Arlee Sebryk Foto: Arlee Sebryk

A imposição desse paradigma começa muitas vezes inconsciente, na escolha da cor para o quarto, na cor das lembrancinhas de maternidade. Mais tarde, o menino é estimulado a ter amigos homens e soltar-se mais, correr, pular, lutar, e a menina a ser mais recatada, brincar com outras coleguinhas de boneca, comidinha, falar baixo, ser mais organizada. O encorajamento é muitas vezes familiar e da sociedade como um todo. Mas, e a menina será que gosta de brincar de boneca e da cor rosa, ou preferia um carrinho e a cor preta?

O problema é que essa mistificação de cores e brinquedos ligados ao sexo das crianças ainda é muito forte. O que aconteceria se seu filho levasse para escola uma boneca e fosse de rosa, você tem ideia?? Você está preparada para descobrir??

Não precisa ser um tratamento de choque, uma alta exposição da criança, mas creio que como pais, podemos ir quebrando essas regras sociais aos poucos, com um presentinho, uma cor “atípico”, conversas, e principalmente o exemplo. Talvez, esse seja o primeiro ranço de preconceito que uma criança é apresentada, e cabe a nós cuidarmos para desmistificá-lo.

Assistente social formada pela UFPB, ama sua profissão, mas tem outras paixões e escrever é uma delas. Por isso, cursou Letras até o sétimo período, mas parou quando Maria Paula nasceu e se viu renascendo como gente, como ser vivente. É casada, trabalha, estuda e é mãe apaixonada. Ama poemizar a vida, transformar sentimentos em palavras e é melhor escrevendo que falando.

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