Na sexta-feira conversei com Lívia pela manhã, ela estava completando 40 semanas de gestação e aguardava a obstetra no consultório. A médica escolhida por ela entre @s indicad@s por mim, foi a primeira ginecologista que me atendeu em João Pessoa e, apesar de não ter feito meu pré-natal com ela (pois sofria da síndrome do jaleco exclusivamente com ela), sempre esteve entre minhas indicações por apresentar uma vertente humanizada. Lívia parecia séria ao telefone, acho que não esperava chegar às 40 semanas, pensava mesmo que seria antes por conta de alguns sinais como o apagamento do colo e até mesmo a postura empoderada dela, bem segura do que queria. Um dos sinais de start dado pela gestante.

Lívia resolveu deixar a obstetra cesarista que a acompanhou durante a gestação e caiu de paraquedas na fanpage da marcha pedindo informações sobre o grupo que estamos tentando criar, o “Parto Humanizado JP”, no Google groups. É impossível indicar um médico humanista em João Pessoa, mas estamos tentando criar uma lista positiva, com profissionais bem intencionados. E está dando certo! De um encontro que tivemos, saiu uma lista dos profissionais que me lembrava e mais algumas dicas baseadas na minha experiência e nas das amigas mais próximas para tentar (ao menos) um parto normal.

Ela me surpreendeu! Ligou e marcou, foi atrás mesmo. Obstetra, anestesista e só faltou contatar neonatologista, mas para nossa surpresa o melhor estava por vir. E assim “esperamos” por mais três semanas, até que recebo um telefonema na madrugada, às 3h47. Era Thiago (o marido) me convocando para o parto – Lívia foi internada na CLIM, de madrugada, com 5cm de dilatação e bolsa rota havia pouco. O trabalho de parto engrenou e a dor crescia à medida que o tempo passava. Eu tomei uma ducha rápida, me vesti e conferi minha bolsa de doula – tudo certo! Quando estou a caminho da porta o Pedrinho acorda e lá vou eu dar de mamar… Saí uns 15 minutos depois certa de que ele não dormiria de novo mesmo, então chamei o superpai Wagner para entrar em ação.

Chegando à maternidade, quase uma hora depois da ligação, encontrei Lívia impaciente com a demora da equipe. Ela não queria massagem, agachamento, nada, nem se apoiar no marido. Ficou ali entre bola e banheiro, e a pena era o chuveiro estar queimado. Fiquei “psicodoulando” a fera em transição. A dor estava apertando e ela quis ser examinada novamente pela plantonista que desaconselhou a posição vertical, pois ela já estava com 8cm, “fique deitadinha que vou chamar sua médica”. Ah, francamente, proibir a mulher de se movimentar livremente porque já era o neném fazendo pressão… Ai, meus sais minerais! A notícia boa é que Drª Y chegou logo em seguida, examinou novamente o colo, permitiu que ela fosse ao banheiro e aproveitasse mais a bola suíça. Entrou em contato com a anestesista que estava de plantão no Hospital Edson Ramalho, bem ali pertinho, e a analgesia viria logo.

Pensei em conversar com Lívia sobre isso, mas cada mulher sabe a dor que sente. E ela estava que era uma graça, apesar da transição. Poucas vezes se ouvia mais que um gemido e ela tentava se agarrar no ar, fechando e abrindo as mãos, sinal de que a dor estava chegando ao limiar do suportável para ela. Relembrei o casal sobre os puxos precoces não serem comprovadamente eficazes e perguntei a ela se enfrentar a dor já daria a sensação de estar fazendo algo por si. Ela aceitou a briga e em poucos minutos a médica avisou que iria se trocar.

Consultei Lívia sobre o plano de parto, lembrando que, segundo o plano, ela não desejaria receber anestesia nesse ponto do trabalho de parto, mas ela disse que “agora” queria. Ok, enquanto a médica não chegasse ela poderia ir curtindo o fim da dilatação. A GO voltou pronta e a acompanhou até a entrada do bloco, eu e Thiago fomos nos trocar. A anestesista recepcionou Lívia na entrada do bloco e quando entrei na sala soube que precisaria usar máscara (?). Bom, como está todo mundo muito acostumado com cesárea ali, inspirei tranquilidade e expirei devagarinho enquanto colocava a máscara. A segunda injeção estava sendo aplicada e a dor estava cedendo espaço para “cólicas leves”.

Livia conseguia se movimentar perfeitamente, pedi que reclinassem a mesa, conforme o desejo dela. Afastei a escadinha (que mais parecia um convite a Kristeller) e a anestesista ficou resmungando. As perneiras foram o apoio dos pés e ali ela já aceitava melhor o contato físico. Procurei segurá-la dando força, relembrando-a de direcionar a força para que as contrações continuassem eficientes, de respirar entre as contrações, e o bebê logo chegou ao canal de parto. Fiquei emocionada quando ela disse que sentia o bebê descer, não havia música na sala, mas na minha cabeça tocava “Deus está aqui”.

“Deus está aqui…

Deus esta aqui.

Tão certo como o ar que eu respiro.

Tão certo como o amanhã que se levanta.

Tão certo como eu te falo e podes me ouvir”

A anestesista começou a ficar impaciente com a descida “lenta” e puxou a escadinha para o outro lado da mesa, já eram 15 min de puxos involuntários. A barriga se mexia e com certeza Thiago Filho estava em plena atividade. Eu acariciava e segurava com firmeza a barriga, para desencorajar a aproximação da Drª M, mas não teve jeito. Precisei falar de novo que Livia pediu que a barriga não fosse empurrada. Aí ela parou de apoiar-se na barriga e apenas firmou enquanto eu pedia a Livia que se imaginasse de cócoras. O ambiente estava especialmente calmo e silencioso, o pediatra estava encantado com o parto e não conseguia disfarçar mesmo por detrás da máscara e dos óculos. Fazia meia hora que estávamos ali.

O períneo estava sendo massageado e aparado pela GO e em poucos minutos Thiago Filho insinuou-se, e o pai se levantou, uma contração veio em seguida e saiu a cabeça toda, a GO retirou a circular de cordão, e o bebê saiu vagarosamente pelo canal. Nasceu às 6h50! Um bebezão! O mecônio saiu na hora, muuuuito, bem pretinho e pastoso, acho que pelo aperto que ele passou – e o silêncio era a coisa mais linda. Nasceu roxinho e calado, mas estava muito sereno, via-se de longe. O cordão foi cortado imediatamente, mas só porque ele estava sujinho e aí não foi dado imediatamente para a mãe, o pediatra limpou com calma, embrulhou nos panos e o silêncio ainda reinava. Todo mundo foi ver o bebê, menos eu, claro. Fiquei aguardando ele ser entregue à mãe, enquanto comemorava e a parabenizava. E lá veio o rebento no colo dela sem soltar um pio, mas já estava quase branquinho todo.

Thiago Filho, pai e Livia Beatriz (Foto: Facebook)

Eu comecei a conversar com a anestesista e a GO enquanto Lívia, o pai e o pediatra conversavam. Admito que todos ficamos bem tagarelas, muito satisfeit@s com o processo. E aí Thiago Filho que já tinha tentado mamar abriu o berreiro – coisa mais linda! A mãe soltou um “shhhh” e continuou a conversa. Kkkkkkkkkkk! Vieram as poses para as fotos, os mimos com o pequeno, o escore de Apgar 9/10, a retirada do soro (acesso) da mamãe, o final da sutura numa laceração mínima. O pediatra pediu para levar o bebê para pesar e medir, 4kg e 51cm, o pai foi junto e nuns dez minutos já estavam de volta, nada de banho de luz de rotina. O casal logo deixou o bloco já com o bebê nos braços, acho que isso nunca foi visto antes na CLIM.

A família deles já estava esperando do lado de fora e aí foi só alegria. A bisavó de Lívia me agradeceu tanto, mas na verdade a maior inspiração da bisneta foi naquela simpática senhora, que pariu cinco filhos de parto natural. Fiquei mais um pouquinho, conheci a família, me certifiquei de que estava tudo bem e me despedi. A primavera chegou com tudo em João Pessoa. <3

Eu, Thiago Flho e Lívia Beatriz na manhã seguinte

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