Eu disse que não ia ficar falando em humanização. Disse sim. Juro que ia falar sobre o tempo “máximo” de gestação e como muitos obstetras insistem na velha desculpa do bebê desavisado que passou do tempo de nascer. E antes mesmo, bem antes, de completarmos as 42 semanas previstas nos livros de Obstetrícia nos encaminham para a “desneCesárea” – a extração do feto feita sem necessidade. Mas a mãe do ano me pediu um post sobre a Marcha do Parto em Casa e eu vou falar.

Sabemos todos que a cesariana salva vidas todos os dias em todo o mundo. Mas é claro que por aqui vem sendo feita indiscriminadamente e isso representa um risco à saúde da mulher e do bebê. Ou alguém acredita mesmo que o homem teria uma maneira melhor de reinventar o que a natureza fez por milhares de anos por si só? Que uma cirurgia é mais segura que o que é natural da mulher?

Houve uma matéria no Fantástico do domingo retrasado falando sobre parto domiciliar, nem vi porque sabia que iam passar o vídeo do parto domiciliar da Sabrina – e já tinha visto uma dezena de vezes. Soube logo cedo que tinha sido uma reportagem bem feita, sem viés tendencioso, e nela o obstetra humanista Jorge Kuhn falou sobre a segurança do parto domiciliar assistido numa gestação de baixo risco. É claro que ele falou isso amparado por evidências científicas, meu povo. Tá tudo aqui.

De qualquer forma o CREMERJ – Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro – divulgou que entraria com uma representação contra o obstetra Jorge Kuhn junto ao CREMESP – mesma coisa em São Paulo. O Conselho agiu motivado pelo quê, afinal? Bom, pela Ciência é que não. Tenho meu palpite e imagino que não seja a única a pensar que o que move é o medo. Medo da mulher redescobrir que pode dar à luz pelo seu esforço e não pelo bisturi. De que este segmento – mulher em gestação de baixo risco – saia do hospital e decida ir parir como e onde quiser.

A gestante deve ser encorajada a dar à luz onde se sentir mais segura. A OMS – Organização Mundial da Saúde – recomenda, baseada em evidências, é sério. E a Febrasgo sabe!

É por isso que ativistas de todo o Brasil decidiram sair às ruas. O dia 17 de junho de 2012 é para ficar na nossa história, é uma luta de consciência da família que reivindica a posse de um evento familiar. O dia em que milhares de pessoas pelo Brasil mostraram a cara em busca de início de um diálogo sério – de respeito.

Eu e Pedro na Marcha em Recife

A Marcha do Parto em Casa não foi feita para definir onde as mulheres devem parir. Mas para dizer a todos que a mulher é quem deve decidir. O hospital vai continuar sendo, e por muito tempo, o lugar preferido por muitas mulheres. Hoje o parto domiciliar é na verdade a falta de opção diante da violência obstétrica, do número absurdo de cesáreas distribuídas a mulheres saudáveis – e muitas delas dispostas a tentar o parto vaginal. O que vem faltando é educação para que tenhamos condições de escolher – será que as mulheres sabem que as cesarianas eletivas multiplicam as chances de morte materna e perinatal?

A assistência ao parto domiciliar ou hospitalar de baixo risco pode ser feita por parteira, enfermeira obstetra e obstetriz – que são devidamente capacitadas e devem ser credenciadas. No caso de alguma intercorrência, o que é raro, elas saberão o momento de encaminhar a parturiente ao obstetra. É importante que se promova o acesso à informação indispensável para restituição da autonomia à mulher.

Contribuição do leitor.
Saiba como participar do blog: http://www.maedoano.com.br/participe-do-blog/

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Comment *