A música poderia ser uma solução para os problemas de leitura de uma grande maioria de crianças disléxicas. Isto é o que mostra um recente e notável estudo. Não somente sua metodologia é impecável, mas os resultados são impressionantes: crianças que frequentaram aulas de música por seis meses, recuperaram literalmente seu atraso na leitura.

Musica, Leonid Afremov

O vínculo entre a música e a leitura pode parecer estranho, mas a dislexia está frequentemente associada a um problema de audição. Para além de alguns casos apresentando uma dificuldade visual em distinguir as letras entre si, as crianças discriminam mal alguns sons como B e P, portanto, têm dificuldades em associá-los às suas letras respectivas, resultando em dificuldade de leitura.

Reconhecimento dos fonemas

“Cada som ou fonema, de acordo com a linguagem da fonoaudiologia, tem parâmetros acústicos que mudam rapidamente ao longo do tempo. Apenas uma excelente sincronização das redes neurais do córtex auditivo com as das áreas da linguagem, garante um reconhecimento estável de cada fonema”, explica Johannes Ziegler, diretor adjunto do Instituto de Pesquisa do Cérebro e da Linguagem da Universidade de Aix-Marseille. Em crianças disléxicas, essa sincronização não é tão bem realizada e o tratamento dos parâmetros acústicos não é suficientemente claro e nem preciso o suficiente.

No entanto, trabalhos anteriores mostraram que a música promovia a sincronização neuronal para tratar tons e ritmos, com repercussões positivas sobre a audição e a linguagem. “Estudos realizados em músicos exercitando-se em demasia demonstraram que suas capacidades linguísticas são exacerbadas. Eles discriminam muito melhor os sons e aprendem mais facilmente um idioma estrangeiro”, explica Daniele Schön, pesquisadora no Inserm e coautora deste novo estudo. “Por outro lado, crianças que têm dificuldades de leitura, apresentam problemas de coordenação do ritmo, seja no canto, na dança ou simplesmente ao seguir uma melodia”.

Música rítmica associada ao canto ou à dança

Para testar o efeito da música sobre a dislexia, Daniele Schön e sua equipe pediram para cerca de cinquenta crianças disléxicas, entre 8 e 11 anos de idade, que participassem de aulas coletivas de música rítmica ou de artes plásticas durante seis meses, duas vezes por semana. Além disso, realizaram exercícios diários de fonoaudiologia.

“Comparar dois grupos era a única maneira de garantir que os eventuais progressos na leitura não estavam associados ao envelhecimento das crianças ou ao grau do seu investimento pessoal em alguma atividade. Além disso, optamos por artes plásticas, pois elas permitem melhorar o desempenho visual que poderia trabalhar em favor de uma melhoria”, explica o pesquisador. No final das sessões, eles pediram que todas as crianças lessem um texto e descobriram que no grupo música, 60% das crianças tinham melhorado na leitura, a ponto de sair dos critérios de dislexia, contra 28% no grupo artes plásticas. Eles lhes forneceram então um segundo texto, contendo palavras inventadas a fim de testar suas capacidades de decodificação e, desta vez, 75% das crianças do grupo música alcançaram êxito, contra apenas 36% no grupo artes plásticas. “O efeito da música já era conhecido, mas este é o primeiro estudo de alto nível comparando dois grupos de intervenção e incluindo uma grande quantidade de crianças “, diz Johannes Ziegler.

Transferência de competências dentro do cérebro

Do ponto de vista dos autores, a importância da música para crianças disléxicas não deixa mais dúvidas. “Há realmente uma transferência de competências dentro do ritmo cerebral para a capacidade de discernir sons e, portanto, de ler corretamente”, acredita Daniele Schön. Na prática, as sessões não exigem conhecimentos específicos, por parte dos professores. Só é preciso que haja ritmo, e ele pode ser oferecido na forma de dança ou canto, para estimular o entusiasmo da criança e fazer com que ela queira frequentar as sessões. O importante é que, nesses encontros, ocorra a prática da música. A teoria musical por si só não é suficiente. E podemos imaginar que para as crianças com uma progressão mais lenta, o benefício da música deve continuar ao longo do tempo.

Não é preciso abandonar a fonoaudiologia. Trata-se de uma abordagem complementar. “A fonoaudiologia é necessária para despertar a consciência fonêmica concentrando-se em sons e no seu aprendizado, repetindo letras em seguida, por exemplo. A música não é tão focalizada, mas cria um contexto favorável para este despertar. Por conseguinte, ela deve ser oferecida logo que um risco de dislexia for detectado, geralmente no final do jardim de infância, no início do ensino fundamental ou ainda, em crianças tendo uma linguagem oral muito pobre. Para além dos 11-12 anos de idade, as crianças disléxicas já acumularam vários anos de atraso na leitura e uma formação musical já não pode suprir esse atraso”, conclui Johannes Ziegler.

Texto: Aude Rambaud.

Formada em Nutrição, divide o tempo de trabalho entre a clínica, alimentação escolar e fotografia! É mãe de um super herói, blogueira desde a adolescência, meio nerd, adora música, moda, séries e filmes.

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