Em 2017, cerca de 400 milhões de pessoas lidaram diariamente com um profundo e duradouro sentimento de tristeza e desesperança – isto é, o equivalente a 7% da população mundial. Essa epidemia silenciosa não se restringe aos adultos. Segundo a OMS, o índice de crianças entre 6 e 12 anos diagnosticadas com depressão saltou de 4,5% para 8% na última década. Para a medicina, a depressão infantil é uma patologia relativamente nova.

Como identificar um transtorno psíquico em uma criança que ainda está aprendendo a nomear os sentimentos que a acometem? Muitas vezes, crianças depressivas acreditam que o desconforto e a tristeza são condições inevitáveis e naturais à sua existência. Dessa forma, não entendem essa situação como algo fora da normalidade, capaz de ser diagnosticado e resolvido. Isso faz com que os pequenos se escondam no próprio silêncio, se retraindo dos laços afetivos e inibindo uma das características mais importantes da infância: a surpresa da descoberta ao brincar.

Para Dra. Mariana Bonsaver, psicóloga infantil, é necessário atenção redobrada dos pais e familiares em situações como esta. De acordo com ela, os sintomas da depressão infantil são comumente confundidos com crises transitórias decorrentes da faixa etária. “A criança também pode apresentar dificuldade em expressar o que há de errado com ela, o que pode interferir no diagnóstico”, explica.

A avaliação médica se respalda no Manual de Estatística e Diagnóstico de Transtornos Mentais. A partir da ocorrência de ao menos cinco sintomas listados no manual em um espaço de tempo de duas semanas, é possível diagnosticar a criança com a doença.

A depressão infantil pode ser diagnosticada em crianças entre 4 e 9 anos. A partir dessa faixa etária, dependendo do diagnóstico e do quadro do pequeno, pode ser necessária a prescrição de medicamentos, além do acompanhamento psicológico. Os causadores da doença variam. Eles podem ser uma predisposição genética; traumas, como abuso sexual ou psicológico; convivência familiar, principalmente no que diz respeito à relação com a mãe; problemas durante a gestação e alguns traços próprios do temperamento.

“Irritabilidade, alterações no padrão de sono e de alimentação, baixa autoestima, crises de choro, oscilações de humor, medo, agressividade, ansiedade” são alguns dos principais sintomas da depressão infantil, de acordo com a psicóloga. Além disso, ela lista emissões involuntárias de urina e fezes durante o sono, bem como dificuldades na escola, muitas queixas de dores físicas e perda de interesse em atividades antes consideradas prazerosas como indícios da doença.

As alterações de sono são os sintomas mais significativos quando se trata da depressão infantil. Elas podem se manifestar como insônia e pesadelos constantes, que por sua vez causam fadiga excessiva, além de sonolência profunda e frequente. “Isso também é bem comum no quadro depressivo dos adultos”, explica a Dra. Gabriela Malzyner, psicanalista e psicóloga. “Para adormecer, precisamos nos permitir (relaxar), assim nos desfazemos da energia diária. Então, quando não estamos bem psicologicamente, a permissão de se desligar e adormecer se torna uma tarefa árdua.”

Como é recorrente em quase todos os distúrbios psíquicos, o diálogo ainda é a maneira mais efetiva para entender e diagnosticar a doença. “Os familiares e responsáveis devem observar o ambiente e perceberem que uma criança certamente desenvolverá algum distúrbio caso passe o dia inteiro na frente da televisão, por exemplo”.

“Muitos familiares lembram de dar o remédio para os filhos, mas se esquecem do quão fundamental é a terapia familiar”, continua a especialista, que ressalta a importância do diálogo e da desmedicalização da infância para a eficácia do tratamento da doença. “Precisamos saber o que eles sentem. Mesmo que eles não saibam nomear com tanta destreza como nós, eles têm ciência do que nutrem dentro de si. Lógico que casos extremos existem e precisam ser tratados, mas seria mais saudável se trabalhássemos em combater as causas antes de buscarmos avidamente por um diagnóstico”.

Caso a depressão infantil não seja diagnosticada e tratada, a tendência é que a doença permaneça à espreita, acompanhando o paciente durante a adolescência. Neste caso, o quadro pode assumir contornos diversos como “isolamento, dificuldades de interação social, transtornos alimentares, abuso de drogas e pensamentos suicidas”, finaliza a Dra. Mariana.

Texto (adaptado): Débora Stevaux.

Formada em Nutrição, divide o tempo de trabalho entre a clínica, alimentação escolar e fotografia! É mãe de um super herói, blogueira desde a adolescência, meio nerd, adora música, moda, séries e filmes.

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