A I Marcha pela Humanização do Parto mobilizou muitas famílias na tarde do último domingo em várias cidades do Brasil. Em João Pessoa, a concentração para o evento começou pontualmente às 15h30 em frente ao Bob’s na praia de Tambaú e seguiu às 16h30 em direção o busto de Tamandaré. Segundo o Correio da Paraíba de ontem, cerca de 100 pessoas estavam presentes na manifestação. É de dar orgulho a reação das mães e mulheres, pais, filh@s que saíram às ruas para manifestar seu desejo por um mundo mais humano começando pela humanização do parto.

Foto: Giovanna Ismael

Atualmente João Pessoa vive uma realidade alarmante no tocante aos nascimentos. Nos hospitais maternidade privados o índice de partos cesáreos chega a 96,9% do total e na rede pública o índice é de aproximadamente 40%, quase três vezes o máximo aceitável pela Organização Mundial da Saúde que é de 15%. Boa parte dessas cesarianas são eletivas, ou seja, sem real e justificável indicação clínica, o que por si só fere o Código de Ética Médica – e leva centenas de mães e bebês todos os anos para as UTIs da nossa capital.

As reivindicações da Marcha são, no mínimo, justas. Não há salas de parto normal na CLIM ou Unimed João Pessoa, sendo os partos normais realizados no bloco cirúrgico – um ambiente que sabemos não é nada asséptico, mas habitado por bactérias super-resistentes ao mais modernos antibióticos. Como um bebê que nunca teve contato com germes estará seguro neste ambiente?

Foto: Giovanna Ismael

Então, se a gestante pessoense se manter firme no propósito de ter seu parto normal até a chegada de sua boa hora, deve optar entre ter seu filho numa sala de cirurgia ou, em casos excepcionais, no apartamento em que estiver internada – que também não é um ambiente preparado para mulher em trabalho de parto por não ter espaço para usar a bola de pilates, caminhar, usar o chuveiro, etc.

Mas falando em opção, diante daqueles 96,9%, será que é “cesárea eletiva” mesmo ou há muito esta cirurgia abdominal já não é praticamente compulsória?

Infelizmente a imprensa local – Jornal da Paraíba, Correio da Paraíba, entre outros – não nos dá voz enquanto reduz nossas bandeiras a uma pequena nota sem foto no jornal. Amplamente parcial, é financiada por estes hospitais que têm publicidade garantida em páginas e mais páginas inteiras dos jornais impressos. Mas e nós, mamães, nada faremos? Vamos fingir estarmos satisfeitas por sermos destituídas da dádiva de que é dar à luz? Terão nossas filhas o direito de escolher sobre o próprio corpo? Terão nossos filhos o direito de acompanhar o nascimento de nossos netos?

Na Unimed João Pessoa ainda se cobra a paramentação (vestes) do acompanhante na hora do parto, leia aqui. Na CLIM as visitas das mães (e pais) é restrita a 30 minutos por turno na UTI Neonatal. Nos dois não é usado o MMC (Método Mãe-Canguru) que reduz consideravelmente o período de internação dos prematuros. O banho de luz é rotina, não porque rotineiramente nasçam bebês com icterícia, mas certamente para lucrarem mais durante a estadia.

Assim, uma série de intervenções são realizadas sem o consentimento da família. E os prontuários vagos se enchem de desculpas para abrirem os ventres femininos. Por que nossos planos de saúde simplesmente pagam por procedimentos como a episiotomia, que ainda mutila o órgão sexual de milhares de brasileiras ainda hoje, 30 anos depois de comprovada sua ineficiência? Cadê a ANS?

Nos hospitais públicos, municipais e estaduais, a reclamação é sobre a qualidade do atendimento e o descumprimento da Lei do Acompanhante (Lei nº 11.108/2005). As instituições alegam que mesmo após os 7 (sete) anos de vigência da lei ainda não dispõem de estrutura, e aí o pai não entra. São inúmeros os relatos acerca do desrespeito generalizado, da recepção à sala de parto. As mulheres simplesmente são esquecidas em salas de pré-parto cheias, sem privacidade, sentem-se humilhadas com os toques feitos por vários profissionais, sem contar as piadinhas no momento do parto.

Está na hora de acordar, João Pessoa! A Marcha não acabou no busto, ela ainda vai entrar em muitas casas paraibanas. E quando ouvir uma mulher altiva falando bem da cesárea, lembre-se de “argumentar com doçura” e então perdoar, ela não sabe que sofre.

Contribuição do leitor.
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2 Comments on A Marcha em João Pessoa e os conflitos de interesse com a imprensa local

  1. Gabriela Abrantes
    08/08/2012 at 11:06 (5 anos ago)

    Acho que um dos maiores problemas, principalmente aí em João Pessoa são as próprias mães. Quando eu comecei a fazer meu pré-natal humanizado, com uma ginecologista especialista em parto humanizado e uma doula, todo mundo em João Pessoa ficava chocado. Ou comentava algo do tipo “Deus me livre, vou marcar o meu parto”, ou “Não quero sentir dor, você é corajosa”. Acho que a mentalidade não é apenas restrita aos médicos – que apenas incentivam a cesariana- mas também das mães e dos pais. Já vi mães que desistiram de ter um PN porque o marido não aceitava ver a mulher “sofrer”, aí p/ a mulher não ter stress aceita a cesária p/ não confrontar o marido. A mentalidade das mulheres paraibanas tem que mudar. Não podemos aceitar um médico dizendo que TEMOS que fazer uma cesariana. Ou nos enganar dizendo que não temos dilatação o suficiente, ou que não podemos ter um PN. As paraibanas não podem baixar a cabeça e aceitar tudo isso.

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    • Juliana
      10/08/2012 at 12:07 (5 anos ago)

      Gabriela, culpabilizar a mulher, o médico, os planos de saúde ou a ANS não pode ser solução. A responsabilidade é de tod@s. Eu faço a minha parte como mulher, leio incansavelmente e busco por pessoas e profissionais que estejam abert@s a dialogar, que acreditam na humanização. Consegui meu parto “normal” na CLIM a um custo emocional alto. Conheço muitas mulheres que estão felizes com suas cesáreas “eletivas” ou salvadoras e outras tantas que se sentem frustradas por não terem tido seu parto normal, o que elas têm em comum é que são mulheres de classe média ou média alta que não se submeteriam ao risco de passar por violência obstétrica no SUS. Mas invariavelmente elas acabam numa cirurgia. Ou seja, a mulher é também vítima da realidade vigente.

      Sugiro esta leitura do Amigas do Parto, publicada originalmente no site do CREMESP:
      http://www.amigasdoparto.com.br/ac025.html

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