Um artigo publicado no the New York Times fez-me rever todas as consultas, acompanhamentos e conversas casuais que tenho tido com várias mães e pais. O artigo conta a história de uma mãe que estava a lidar com um “não” do filho para sair do carro, num momento de grande tensão, pressa e cansaço. Tomou a decisão de deixar o filho dentro do carro, num parque de estacionamento seguro, numa cidade segura, com os vidros abertos, as portas trancadas e a correr numa velocidade estonteante para garantir que o filho não ficava mais do que 5 minutos à espera no carro. E não ficou. Quando regressou ao carro, o filho sorria-lhe feliz. Passado poucos anos, esta mãe foi abordada por um polícia que a informou que tinha uma ordem de prisão excecional. O artigo intitula-se «Maternidade na idade do medo» e os sentimentos que esta mãe expressa, levam-me a escrever o artigo de hoje: medo, culpa e vergonha. Pergunto-me se durante aquele episódio não estivesse alguém a filmar aquela mãe, a gravar a matrícula do carro e a ligar para o serviço de emergência; se aquela mãe, consequentemente, não tivesse sido mais tarde abordada por um polícia; se aquela mãe não tivesse sido acusada de negligência parental, estaria ela envolta nestes sentimentos?

Em casos menos extremos, diariamente mães e pais lidam com estas questões: não devia deixar o meu bebé assistir televisão, mesmo que esteja com mil coisas para fazer (para o bebé). É errado dar ao meu filho um hambúrguer do Macdonalds, mesmo que seja somente o pão e a carne e numa ocasião excecional em que não tinha outro tipo de comida para alimenta-lo. Não é suposto o meu filho ainda dormir comigo na cama, mesmo que eu passe os dias a trabalhar, não consiga ter tempo para brincar com ele e chegue completamente esgotada e sem forças para aguentar uma a duas horas a tentar adormecê-lo. Somos péssimos pais por deixarmos os nossos filhos com os avós, para podermos ir almoçar fora depois de meses de privação de sono, choros sem fim e ausência de tempo para respirar (quase literalmente). Estes são apenas alguns exemplos que causam constantes sentimentos de medo de julgamento, culpa e vergonha. São vários os artigos, incluindo os científicos, que vêm demonstrar, cada vez mais, a pressão que uma mãe e um pai sofrem na atualidade simplesmente por terem esse papel. Não se pode, não se deve, não se diz, não se mexe, não se nada. E quando “não se pode nada” os nossos olhos e a nossa atenção viram-se para fora, num medo gigante do julgamento e num ciúme rancoroso da comparação. É uma grande bola de neve, um ciclo que rodopia sem fim e que transforma mães e pais seguros em pessoas confusas, sem confiança e, claro, completamente esgotados. O que fazer então?

Flexibilize. Não existem ideais, apenas ideias pré-concebidas daquilo que queremos ser e fazer; e todos os dias são novas oportunidades para aprender e melhorar, mas só vai conseguir fazê-lo quando se livrar da culpa, da vergonha e do medo.

A frase clichê «ninguém nasce ensinado» é representada de forma excecional no que diz respeito ao mundo da maternidade e paternidade. Não existe manual de instruções, truques antigos infalíveis, avós com toda a sabedoria do mundo. Antes existe aprendizagem por tentativa-erro, conversas que expulsam sentimentos e feelings internos que nunca nos foram ensinados. Ser mãe/pai tem tanto de maravilhoso como de desafiante. Por favor, lembre-se constantemente que tudo é uma grandiosa aprendizagem. Por isso, da mesma forma que imploramos a outras mulheres e homens (mães/pais ou não) que evitem o criticismo, a comparação, o julgamento e a competição; devemos fazer o mesmo em relação a nós próprios. Imaginem como seria se todas as mães e pais fizessem isso consigo mesmos e com os outros.

Por Ana Gomes – Psicóloga Clínica e da Saúde

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